Andrea Ramos

11.09.2020 | 19:59

Scania terá caminhão autônomo sem cabine no Brasil em 2023

Caminhão autônomo da Scania, que não tem cabine e será controlado à distância, virá em 2023 para atuar em operação de extração de minério em MG

Caminhão autônomo nível 4 da Scania chega ao Brasil em 2023
Crédito: Scania/Divulgação

A Scania terá uma operação com caminhão autônomo de nível 4 no Brasil em 2023. O modelo, que não tem cabine e, portanto, opera sem motorista a bordo, vai atuar em uma operação de mineração em Minas Gerais. A informação é do diretor-presidente da Lots Group Latin America, startup que pertence à Scania, Huber Mastelari.

A operação do caminhão só será possível por se tratar de um ambiente confinado. Embora o veículo possa rodar sozinho, haverá um motorista treinado controlando a operação à distância. O objetivo é garantir a segurança e reduzir o risco de ocorrência de acidentes.

Mastelari conta que a Scania começou a desenvolver tecnologias de condução autônoma na Suécia em 2016. Em 2018, a marca iniciou testes no Brasil, que servirão de base para a empresa oferecer os novos sistemas na América Latina. Na Austrália, também em 2018, a marca do grifo começou a avaliar o caminhão autônomo em operação na mina da Rio Tinto. A Unidade é baseada em um caminhão off-road XT. E há um plano para 2023 de trazer uma operação semelhante ao da Rio Tinto para o País.

Vale lembrar que, em 2019, a marca apresentou o AXL, um caminhão autônomo sem cabine (foto abaixo). No Brasil, o modelo não será o AXL, mas é possível que seja um protótipo bem parecido, também sem cabine.

“Nosso objetivo é comercializar e operar a futura frota de caminhão autônomo da Scania”, diz Mastelari (foto abaixo). Ele frisa que a Lots não desenvolve nem o hardware (caminhão) nem o software (arquitetura eletrônica). Seremos os operadores dos sistemas autônomos. Mas algumas dessas tecnologias pertencem à nossa torre de controle”, diz.

Etapas para a introdução do caminhão autônomo

Estudos feitos pela startup junto com a Scania indicam que ambientes confinados são os mais adequados à introdução de níveis mais avançados de condução autônoma. É o caso áreas de mineração, florestas, fazendas e portos.

Em alguns caminhões disponíveis no Brasil já há recursos de condução autônoma de nível 2. Entre outras funções, esses dispositivos permitem que o veículo acelere e reduza a velocidade sem interferência do motorista. A frenagem automática de emergência, que reduz drasticamente o risco de acidentes, é outro destaque.

Essas soluções são chamadas de sistemas preditivos. O caminhão pode ajustar sozinho parâmetros como velocidade e a marcha ideal de acordo com relevo da via e a carga transportada, por exemplo. Entre os modelos que oferecem esse tipo de recurso estão os novos DAF XF 105 e Mercedes-Benz Actros 2651, além do Volvo FH, por exemplo.

Scania

Uso urbano será a fase mais complexaainda engatinha

Segundo Mastelari (foto acima), ainda vai demorar para esses caminhões chegarem às rodovias. E, quando isso ocorrer, será em trechos dedicados. Ao menos no início. Primeiro é preciso refinar a tecnologia e haver legislação específica, que regule a operação de veículos autônomos.

A última etapa desse novo processo será a introdução dos veículos autônomos em ambientes urbanos. De acordo com o executivo, essa será a fase mais complexa. Sua viabilidade dependerá da capacidade de o veículo interagir com todos os sistemas do entorno. Isso inclui outros veículos, semáforos e sistemas de sinalização viária, por exemplo.

Mastelari diz que o estudo feito pela Lots e Scania também apontou o potencial do Brasil para a aplicação da nova tecnologia. “A América Latina, com destaque para o Brasil, é o único local do mundo onde há agricultura, mineração, floresta e alta demanda logística concentrada.”

Brasil poderia ser celeiro da automação

Apesar desses atributos, o Brasil não é citado como um possível centro de desenvolvimento tecnológico. Aliás, o País nem está preparado para receber veículos autônomos. Essa é uma das conclusões do 2020 Autonomous Vehicles Readiness Index (Índice de Prontidão para Veículos Autônomos 2020). O estudo foi elaborado pela consultoria KPMG.

O Brasil ocupa a última posição nos dois últimos relatórios publicados. A diferença é que no estudo feito em 2019, foram analisados 25 países e neste ano a lista tem 30 nações. Ou seja, mesmo com o aumento da base de participantes, ainda continuamos na lanterna.

A KPMG utilizou 28 indicadores para mensurar a capacidade dos países avaliados de promover a inovação e a implementação de veículos autônomos. Cada indicador foi organizado a partir de quatro critérios: política e legislação, tecnologia e inovação, infraestrutura e aceitação do consumidor. O Brasil ficou em 30º lugar em três quesitos. A melhor classificação (29ª posição) foi a aceitação do consumidor.

“Não há ainda políticas públicas de incentivo para esses tipos de veículos. Fomos superados por Hungria, Rússia, Chile, México e Índia”, afirma o sócio-líder de Governo da KPMG no Brasil e na América do Sul, Mauricio Endo. Segundo ele, o desempenho do Brasil poderia ser impulsionado por mais pesquisas e programas de incentivos governamentais.

Ásia e Europa lideram corrida para automação

A liderança do ranking feito em 2020 ficou com Cingapura. A Holanda aparece na segunda posição da lista, seguida pela Noruega, em terceiro lugar. Os três países mantiveram as mesmas posições em que estavam no levantamento anterior. A Suécia, país natal da Scania, está na sexta posição neste ano.

Mastelari explica que estudo da KPMG foca a implementação das fases dois e três da tecnologia em rodovias e centros urbanos, respectivamente. Para funcionar nesses ambientes, é preciso haver harmonia entre legislação, infraestrutura e segurança de informação. “As montadoras têm recursos limitados. E, quando as matrizes das empresas consultam esse ranking, que é bastante conhecido, obviamente não cogitam investir na América Latina”, diz.

Ele pondera que está claro a potencialidade do uso da automação veicular no Brasil, mas em ambientes controlados. Colabora com isso o fato de a tecnologia para o desenvolvimento do agronegócio estar bem desenvolvida o País. Há cerca de 300 startups focadas no setor apenas no interior do Estado de São Paulo. Essas empresas formam a chamada AgTech Garage, um dos principais agregadores de novas soluções voltadas ao campo no País.

A AgTech Garage promove a conexão entre grandes empresas, startups, produtores, investidores e outros segmentos ligados ao empreendedorismo mo agronegócio. “Por causa de iniciativas como essa a Scania está cada vez mais confiante na introdução da tecnologia autônoma no Brasil no seu nível mais elevado”, diz Mastelari.

Scania prepara clientes para a automação

Segundo ele, um dos papeis das startups de inovação é desenvolver tecnologias que eliminem os gargalos comuns nessas operações. E também ajudar os clientes a prepararem suas estruturas para receber soluções de conectividade de modo a aumentar a produtividade.

É o caso da qualidade das vias onde os caminhões irão trafegar. Embora a operação seja predominantemente no fora de estada, é preciso haver sinalização e cobertura de redes de dados adequadas. Se isso os veículos não conseguem operar  sem a presença de um motorista na cabine.

O executivo diz que não é necessário haver cobertura de rede 5G. O caminhão autônomo pode operar perfeitamente se houver uma rede 3G bem estruturada, de acordo com ele. Com o novo sistema, haverá redução de vários processos, como paradas para apresentação de notas fiscais e conferência da carga, por exemplo. Esses processos serão digitalizados.

Essas soluções visam ampliar o ganho operacional e reduzir os custos de operação. Isso é fundamental para viabilizar o negócio, uma vez que o caminhão autônomo é bem mais caro que um convencional equivalente. Por isso, sua depreciação também tende a ser maior.

Soluções personalizadas conforme a situação

Entre as vantagens das novas tecnologias está a maior capacidade de planejamento. O objetivo é reduzir custos e operar as frotas de forma mais eficiente. Um dos exemplos é o período de chuvas. Nas áreas de mineração, e mesmo durante a colheita, se chover muito os caminhões podem ficar parados durante dias.

Duas startups brasileiras ligadas à AgTech Garage estão desenvolvendo uma solução voltada à previsão do clima em microrregiões. Será possível antecipar decisões com base nas condições do tempo com uma semana de antecedência. Isso permitirá, por exemplo, que o gestor defina melhor o local onde será feita a colheita ou o campo de mineração onde a frota irá atuar.

“Há clientes que têm 150 mil hectares de plantações. Outros atuam com operação de minério em vários cantos do País. E, se soubermos antes que irá chover muito, poderemos migrar a operação dos caminhões para outros locais. Dessa forma conseguiremos operar com maior previsibilidade e fazer com que a frota nunca pare”, afirma o porta-voz da Lots Group.

Como fica o motorista

Com o sistema de condução autônoma de nível 4, não haverá motorista na cabine do caminhão. O protótipo que a Scania trará ao País não terá cabine. O “motorista” irá operar o veículo a partir de uma torre de controle e monitorá-lo à distância. Isso vai demandar profissionais com bom nível de conhecimento sobre novas tecnologias.

“Nas nossas operações no Brasil já temos 600 motoristas sendo preparados para isso”, diz Masterali. Esses profissionais  estão recebendo um intenso treinamento, que envolve tanto aulas teóricas quanto práticas. “Assim como o piloto precisa ter para operar um avião”, compara o executivo.

Níveis de automação

Nível 1 – Praticamente todos os caminhões pesados têm recursos de condução autônoma de nível 1. É o caso de sistemas como Assistência Ativa de Frenagem (ABA), de Orientação de Faixa de Rolamento, Controle de Distância (do veículo à frente) e de Velocidade com radar.

Nível 2 – Graças ao sistema de geolocalização, o caminhão pode frear, acelerar e seguir a rota predeterminada sozinho. Sua operação é limitada a ambientes controlados. Um motorista deve ficar a bordo para monitorar o comportamento do veículo e intervir quando necessário. Volvo, Mercedes-Benz e Volkswagen têm essa tecnologia.

Nível 3 – Traz basicamente as mesmas soluções do sistema de nível 2. A diferença é que não há necessidade de intervenção do motorista em algumas situações. Se o sistema identificar que o caminhão está em um congestionamento, por exemplo, poderá entrar em ação sem interferência humana.

Nível 4 – O nível 4 de condução autônoma dispensa totalmente o motorista. Scania ALX e Volvo Vera estão sendo testados. Os cavalos-mecânicos não têm cabine.

Nível 5 – Esse é o mais alto nível de automação. E permitirá que os veículos atuem 100% sozinhos, interagindo com o entorno. Haverá troca de informações com os outros veículos e semáforos, por exemplo. E eles atuarão em rodovias e ambientes urbanos.

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