Você está lendo...
ZF TraXon antecipa tendências da Euro 6 no Brasil
Entrevista

ZF TraXon antecipa tendências da Euro 6 no Brasil

Produzida no Brasil desde 2020, a transmissão ZF TraXon traz tecnologias que atendem as regras da fase 8 do Proconve, que entra em vigor em 2023

Andrea Ramos

26 de mai, 2022 · 13 minutos de leitura.

ZF TraXon antecipou tendências da Euro 6 no Brasil
ZF TraXon antecipou tendências da Euro 6 no Brasil
Crédito:ZF/Divulgação
ZF TraXon antecipou tendências da Euro 6 no Brasil

Em agosto de 2020, a ZF começou a produzir a transmissão TraXon no Brasil. Aliás, trata-se do único local fora da Alemanha com uma equipe capacitada na chamada calibração de nível 4. Ou seja, que pode atuar no desenvolvimento e correção de softwares. Assim, é possível ajustar o sistema de acordo com o tipo de aplicação do caminhão ou ônibus.

Leia também: Caminhões Volkswagen vão usar motores Scania

Para isso, a planta da ZF em Sorocaba (SP) recebeu atualizações. Como resultado, foi implantado um banco de testes que simula a utilização severa da transmissão antes da liberação para entrega. Segundo a própria companhia, a fábrica brasileira é a mais avançada do grupo no mundo. A unidade exporta a ZF TraXon para vários mercados, inclusive a Europa. A caixa também é fabricada na China,


ZF do Brasil está de olho nas tendências

Gerente sênior de vendas e estratégia de mercado da ZF, Toni Gerber diz que a fábrica brasileira tem uma área de gerenciamento de conformidade e confiança e risco do produto. Ou seja, que permite mapear o atendimento às regras de todos os países.

Em razão disso, a ZF no Brasil abastece outras regiões. Inclusive mercados com legislação menos rígida. Como alguns países da América do Sul e da África, que ainda estão na Euro 3. Nesse sentido, a ZF mantém a produção local de componentes utilizados na Europa nos anos 1990.

Nesta entrevista, Gerber fala sobre a eficiência da TraXon. Além de tendências que chegarão ao Brasil com a entrada em vigor da Euro 6. O executivo também revelou algumas novidades em relação à eletrificação.


TraXon tem elevado nível de automação

Como foi iniciar a produção local da TraXon em meio à pandemia da covid-19?

Foi muito desafiador iniciar a produção, sobretudo por causa da falta de componentes. Essa transmissão é a que mais agrega mais sistemas eletrônicos. Ademais, todo o ferramental teve de ser nacionalizado. Tudo isso sem perder de vista as mudanças regulatórias, por causa da Euro 6.

A gente sempre fica com um certo receio de introduzir algo no Brasil, sem ter a certeza se estamos no timing certo. Porque ocorre pressão das fabricantes em postergar, como ocorreu com o ABS e o air bag nos veículos leves. Mas agora sabemos que a decisão de nacionalizar essa caixa foi acertada.


A TraXon é uma evolução da AS-Tronic?

Isso. A AS-Tronic foi desenvolvida para atender a Euro 5. A TraXon é para a Euro 6. Por isso, ela é mais evoluída até na arquitetura. Sua carcaça é menor e há menos conexões expostas. Em termos de módulos, a nova transmissão é mais protegida. Assim, sua montagem é mais simples. Além da tecnologia embarcada, o conjunto de planetárias foi todo repensado.

Para comparação, a AS-Tronic é uma evolução da transmissão manual. E a TraXon foi concebida para ser automatizada.


ZF TraXon antecipou tendências da Euro 6 no Brasil
Fotos: ZF/Divulgação

Antecipando soluções

Então, essa transmissão traz soluções visando a redução do consumo e das emissões?

Com toda certeza. A solução Prevision, como o nome sugere, consegue antecipar o que o caminhão vai encontrar à frente. Dessa forma, pode adequar a rotação e a marcha conforme a velocidade do veículo e poupar combustível. Mas o cliente escolhe quais soluções quer comprar e de que forma vai oferecer ao mercado. A Prevision, no caso da DAF, por exemplo, é opcional.


Aliás, a DAF trouxe essa tecnologia antes mesmo da nova regra. Pelo menos no caso da caixa. Ou seja, a tecnologia da transmissão é oferecida mesmo nos caminhões com motor Euro 5.

Há outras marcas comprando a caixa com funções que atendem as novas normas de emissões?

A Volkswagen Caminhões também utiliza a TraXon nas linhas Constellation e Meteor. No entanto, em conjunto com outros recursos. Como as funções de troca de marcha rápida com a embreagem parcialmente aberta. Em outras palavras, isso gera alta dinâmica do veículo ao reduzir o tempo de engate. E ajuda a reduzir o consumo de diesel.


A marca também optou pelo Eco Roll, que coloca a transmissão em neutro quando o software da caixa entende que a estrada permite. É um recurso que visa reduzir o consumo de diesel. Mas claro, se as fabricantes, tanto DAF quanto a Volkswagen, quiserem agregar mais recursos, temos condições de entregar. Afinal, está tudo pronto. Basta fazer a calibração.

Novos clientes chegando com a Euro 6

Há clientes, além de DAF e Volkswagen, adquirindo a TraXon?

Sim, há produtos de outras marcas que vão chegar com novidades para a Euro 6 com transmissão Traxon.


Existem outras funções nessa transmissão que ainda não foram absorvidas pelo mercado brasileiro?

Sim. A caixa traz funções, por exemplo, que aumentam o conforto em manobras. Elas não foram absorvidas ainda pelos clientes brasileiros. Mas estão disponíveis.

ZF terá retarder para o Brasil

Quais as maiores contribuições que a TraXon trará com a Euro 6?


A Euro 6 também trata de ruído. E essa é a maior contribuição, porque a TraXon já atende o que seria a terceira fase do programa. Ademais, se agregar o retarder à transmissão, é possível parar o caminhão. Ou seja, reduzir o desgaste dos freios em até 90%.

Já há clientes brasileiros do retarder da ZF?

A partir de 2023, haverá clientes no Brasil com produtos com a TraXon e o retarder. Hoje, abastecemos o México com esse componente.


Alto nível de calibração

Quanto tempo leva para fazer a calibração do zero. Ou seja, para um novo caminhão?

Uma calibração completa pode levar em torno de oito meses para ser feita. Porém, em um produto que já está desenvolvido o tempo é menor.

O fato de o Brasil ter dimensões continentais ajuda a nossa indústria a ter essa expertise?


Certamente. O Brasil proporciona todos os tipos de geografia, temperatura e condições rodoviárias. Assim, nossa equipe conseguiu se especializar. Afinal, nossos componentes têm de atender todas as condições de uso, porque o caminhão atravessa todo o País.

Por causa dessas condições, a transmissão tem de ser mais robusta aqui do que na Europa?

Nossa caixa roda fazendo mais esforço. Logo, tem de ser robusta. Talvez pudesse ser muito mais eficiente. Mas temos de considerar que a transmissão vai enfrentar percalços que não existem na Europa, por exemplo. Aqui, a caixa enfrenta lama, buracos e altas temperaturas. Na Europa, ela é regulada para neve e temperaturas frias mais constantes. Por isso, temos esse laboratório no fim da linha de montagem para expor a transmissão a todas essas condições.


Nacionalização

Qual é o índice de nacionalização da TraXon?

Nosso índice de localização é de 60%. Não é possível ser 100% por causa dos módulos eletrônicos. Apesar de serem produzidos pela ZF, os insumos vêm de várias partes do mundo, especialmente a Ásia.

Com mais clientes, vai ser possível ampliar o índice de nacionalização?


Nesse sentido, a Wabco vai nos favorecer porque ela tem uma forte divisão de eletrônicos. Ao mesmo tempo, vai ajudar a diminuir nossa dependência de importação e da variação do dólar. Portanto, sim, é factível aumentar a nacionalização de peças. Mas isso demanda esforços e investimento por parte dos fornecedores locais.

Outras soluções

A TraXon terá novas variações no Brasil?

Sim. Desenvolvemos uma caixa automatizada de nove marchas para atender as regras da Euro 6. Apesar de derivar de uma caixa manual, sua arquitetura de software é a mesma da TraXon. Essa transmissão foi desenvolvida para a Ford. Mas, como a empresa saiu da operação de caminhões, ela será lançada por outra montadora. E vai equipar caminhões semipesados.


Outros segmentos, além da coleta de lixo, vão demandar caixas automáticas e automatizadas?

Sim. E para isso, temos a Powerline, uma automática de oito marchas que deriva da de picapes, como a Volkswagen Amarok, que utiliza a 8 HP ZF. Vamos aplicá-la em veículos comerciais de até 24 t.

Mobilidade elétrica

Com a Euro 6, será preciso investir em eletrificação. O que a ZF vai trazer?


Por meio de importação, vamos trazer eixos de tração elétricos. Como ocupam pouco espaço e virem com as baterias, sua aplicação mais comum é em ônibus de piso baixo. Acreditamos muito no potencial desses eixos no Brasil. A Mercedes-Benz vai utilizar esse sistema em ônibus no Chile e na Colômbia.

ZF TraXon antecipou tendências da Euro 6 no Brasil

Ademais, vamos trazer a CeTrax. Ou seja, uma tração central elétrica junto com um motor elétrico e um inversor. Esse sistema equipa ônibus e caminhões com peso bruto total (PBT) de até 20 t.


Portanto, estamos focados em mudar a chave para a eletrificação. Queremos mudar a cabeça dos nossos fornecedores. E vamos incentivar a e-mobilidade onde for possível.

Deixe sua opinião