Entrevista

'O Brasil tem de investir no transporte elétrico' diz CEO da TMH

Para executivo Thompson, transporte rodoviário de carga será digital, elétrico e autônomo. Cabe ao governo preparar o País para as mudanças

Andrea Ramos

31 de ago, 2021 · 20 minutos de leitura.

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O transporte será digital, elétrico e autônomo, diz CEO da Thompson
O transporte será digital, elétrico e autônomo, diz CEO da Thompson
Crédito:Ronaldo Nuzzi/Divulgação
O transporte será digital, elétrico e autônomo, diz CEO da Thompson

A eficiência nas operações de transporte está cada vez mais ligada à conectividade. Portanto, só será viável com veículos elétricos e, no futuro, autônomos. É o que afirma o CEO da Thompson Management Horizons no Brasil, Ronaldo Nuzzi. Segundo o executivo da consultoria global de gestão, o Brasil precisa urgentemente criar políticas públicas para viabilizar a mobilidade elétrica.

De acordo com Nuzzi, a indústria vem fazendo sua parte. Caso contrário, ele diz que poderá haver um desdobramento do que chama de “efeito Ford”. Ou seja, a debandada de mais empresas do Brasil. Para lembrar: a Ford encerrou a produção das fábricas de São Bernardo do Campo e Taubaté, em São Paulo, Camaçari, na Bahia, e Horizonte, no Ceará, onde produzia o jipe Troller. Com isso, até 12 mil colaboradores, entre diretos e indiretos, perderam o emprego.

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Em entrevista exclusiva ao Estradão, Nuzzi diz que a eletrificação só será viável se houver adesão das esferas municipal, estadual e federal. Segundo ele, se não houver uma lei que obrigue que a frota de táxi de São Paulo, por exemplo, seja elétrica, isso nunca vai ocorrer. "Assim como não haverá uma frota de ônibus e caminhões de lixo elétricos. Mas, se houver volume de vendas, o elétrico ficará mais barato", acredita o executivo.

Transporte com alta tecnologia

Nesse sentido, com a demanda por altas tecnologias e fabricantes atuando com margens cada vez menores, Nuzzi enxerga como tendência, a curto prazo, a verticalização das montadoras com demais partes importantes da cadeia automotiva. Como implementadoras e fabricantes de pneus, por exemplo.

E a concessionária caberá o papel de oferecer serviços. Sobretudo porque a ótica da redução do custo total de propriedade será cada vez mais importante, a medida que a tecnologia dos veículos de transporte aumenta.


De mesmo modo, a tendência é que cada vez mais a rede de concessionárias passe a oferecer soluções multimarcas. Por tudo isso, Nuzzi enxerga os próximos anos de grandes mudanças na indústria que cobre o transporte rodoviário de carga. Confira a entrevista.

TRC em transformação

Quais transformações você vê como mais pujantes no mercado de veículos comerciais?

O mercado está passando por uma mudança tecnológica gigantesca. E no setor de transportes, essa mudança vêm para transformar o comportamento sobre o custo total de propriedade dos equipamentos. Ou seja, o negócio de uma transportadora leva em conta o quanto vai custar o veículo durante o seu período de operação.


No Brasil os equipamentos são caros. Porém, produzidos sob a ótica da vida útil. Mesmo porque a infraestrutura do País é ruim. Como comparação, nos Estados Unidos os caminhões pesados rodam apenas na última milha. Porque lá existe a integração com outros modais. Enquanto aqui o caminhão faz todo o percurso. Então, por essas razões, o uso da tecnologia tende a reduzir os custos de operação. Por isso, é a maior tendência no setor de transportes.

Pode dar exemplos de tendências tecnológicas que vão ajudar na redução do custo total de propriedade?

A eletrificação dos veículos. Apesar dos investimentos serem altos, os benefícios são inúmeros. Os custos de operação são reduzidos. Além disso, há benefícios ambientais o que agrega uma boa imagem para a empresa. E o veículo se paga durante toda a sua vida útil.


Eletromobilidade

Como você enxerga a chegada da mobilidade elétrica no País?

Há três tipos de eletromobilidade para o transporte de cargas. Aquela cujo caminhão é totalmente elétrico. O que funciona, no Brasil, dentro das cidades, por causa de autonomia e infraestrutura. Há ainda o modelo híbrido. Ou seja, com o motor a combustão e elétrico. Esse é o modelo mais interessante para o transporte no Brasil. Porque ele pode atender às grandes rotas. Com isso, eu vejo que o futuro da eletromobilidade no Brasil é híbrido. Há ainda um terceiro modelo híbrido, em que a bateria do caminhão é carregada por um pequeno motor a combustão. O que poderia funcionar no País também. E não adianta tentar negar. O futuro é autônomo, o Brasil estando preparado ou não, a tecnologia vai chegar.

O que ocorre é que não existe incentivos no Brasil para se desenvolver essas tecnologias. E elas chegam prontas de outros países. Mas não estão preparadas para enfrentar uma infraestrutura como a nossa.


Nesse sentido, quais são os desafios?

O maior desafio hoje é renovar uma frota de 2,2 milhões de caminhões. Sendo que 200 mil têm mais de 30 anos. Teremos que ter uma frota conectada. Imagine se houvesse incentivo governamental que nos ajudasse a renovar essa frota, levando em conta que a direção é a eletrificação? Se isso não ocorrer, fazer o transporte com caminhão só a bateria vai ser impossível. Além de que a logística sempre será custosa. Como eu disse, quanto mais tecnologia, menor o custo com TCO.

Tecnologias

Então qual tecnologia podemos importar e usar 100% sem adaptações no Brasil atualmente?


A de recolhimento de lixo. Trata-se de uma operação muito parecida a de mercados como europeu e norte-americano. E no Brasil resolveria um segundo grande problema do transporte de carga. O de ruído. Dessa forma, os caminhões ficariam mais livres para rodarem à noite. Mas repito que sem incentivos dificilmente nós vamos ter uma implementação adequada da tecnologia elétrica. Eu diria que estamos numa pendência de 10 anos.

Consequências para a indústria

E como fica a indústria local? Muitas tecnologias são importadas das matrizes. E outras desenvolvidas aqui como um complemento ou o que se chama de tropicalização.

A capacidade do Brasil reter a indústria é muito baixa. Ainda mais se houver aumento de impostos da forma como está se prevendo. Ou seja, há grande probabilidade de muitas empresas nem estarem mais no País. A expectativa de se desenvolver tecnologias nacionais com os incentivos atuais também é bem baixa. Por isso está na hora de desenvolver um plano diretor. Aliás, esse seria o momento para projetar a indústria brasileira no futuro. E em âmbito federal estadual e municipal.


Na China isso é feito com 30 anos de antecedência. Como serão as cidades daqui há 30 anos? Quais tecnologias vão demandar? Como será o transporte? Hoje uma cidade como São Paulo deveria ter uma frota de táxis elétricos. E quais os incentivos que existem para isso? Nenhum. Então imagine quanto seria o custo total de operação com esse veículo. Bem como os benefícios para a cidade?

De mesmo modo, caminhões que rodam em ambientes com rotas definidas já deveriam ser elétricos. Assim como também conectados e quase autônomos. A eletromobilidade já deveria estar também no transporte urbano de passageiros.


Concessionária

Qual é o papel das concessionárias nesse mercado?

Nesse sentido, se reduz significativamente o trabalho da concessionária, na aproximação de quem compra e quem vende o equipamento. Porque a mesma tecnologia que a indústria utilizou para desenvolver os veículos atuais, ela vai usar dentro do negócio dela. Por exemplo, a indústria consegue montar o caminhão usando a inteligência das informações. Ou seja, pela Internet.

Contudo, a concessionária tem que mudar o papel dela no mercado. Ela não venderá mais veículos. Ela prestará serviços.


Serviços relacionados à redução de TCO e o papel da concessionária na manutenção desses veículos?

É esse o caminho e isso vai acontecer não só em veículos comerciais. Vai ocorrer com pneus, baterias, etc. Logo, a concessionária terá de mudar a visão atual de ser uma empresa de vendas para se transformar em uma empresa de serviços. Já tem até nome para isso “Dealer Service Center”.

Estamos vendo no mercado de automóveis serviços como aluguel e assinatura. E isso já está caminhando para o mercado de caminhões. Porque faz parte da redução do custo. A capacidade financeira de criar volume e baixar o custo unitário vai entrar em todos os mercados. E com o transporte não será diferente. Porque ele é a bola da vez no Brasil. Ainda mais agora com a necessidade de as pessoas receberem tudo em suas residências.


Sensor de negócio para as montadoras

Porém, como tornar o serviço da concessionária convidativo para o cliente, frente ao consenso do mercado de que os serviços nas concessionárias são caros?

O futuro da concessionária é fazer cair esses preços para que ela possa ser competitiva. E consiga trazer tudo que acontece fora da concessionária para dentro de casa. Assim, a tendência é que oficinas mecânicas, borracharias que hoje existem dentro das transportadoras deixem de existir. E se concentrem dentro das concessionárias. Mesmo porque o caminhão cada vez mais será dotado de tecnologias.

Logo, a concessionária passa a ser o centro de inteligência para cada vez mais adaptar o caminhão às necessidades da transportadora. Eu poderia até dizer que a concessionária ganharia por performance. A concessionária do futuro é um sensor de negócio para a montadora. Ou seja, as informações primeiro serão boladas dentro de uma concessionária, para depois a montadora executar. A rede é que vai informar o que é preciso mudar.


Implementos rodoviários

E o implemento rodoviário, quais as tendências que o senhor enxerga em termos de tecnologias, bem como entrega de serviços por parte dos fabricantes?

Existem vários projetos entre os fabricantes para tornar os implementos inteligentes. Ou seja, fazer com que a carreta “converse” com o cavalo-mecânico. Por exemplo, é sabido que o rendimento de uma viagem está diretamente relacionado à calibragem dos pneus. E esta por sua vez, ao consumo de combustível, problemas nos eixos etc. Existem módulos dentro dos pneus para controlar tudo isso. O mesmo vai ocorrer com os implementos rodoviários.

Porém, toda essa inteligência que está sendo desenvolvida pelos fabricantes de implementos, pode ser feita pelas montadoras em um futuro próximo. E as montadoras sabem que o desempenho dos seus veículos depende do implemento. Então, eu acredito que a curto prazo os fabricantes de caminhões devem trabalhar em simbiose com as fabricantes de implementos. Vejo até a possibilidade de uma verticalização. Ou seja, montadoras adquirindo implementadoras. Mesmo porque as margens das empresas estão cada vez menores.


Relação de cooperação

Verticaliação é uma tendência?

Seja como for, se as empresas não se verticalizarem, a tendência é a montadora assumir o desenvolvimento tecnológico dos implementos. O implemento não é um equipamento sofisticado. Ou seja, ele vale o quanto pesa. Mas, cada vez mais, esses equipamentos terão de oferecer informações precisas. Assim como o caminhão tem uma CPU, o implemento terá também.

Mas quando eu me refiro sobre essa simbiose entre montadora e implementadora, não é nem por causa da tecnologia. Mas sim por causa de margem. Elas vão cair assustadoramente. Quero dizer que centavos serão mais bem administrados.


Redução dos custos

E as margens vão cair por causa da alta tecnologia?

Elas caem pela pressão muito forte na política de preços. Ou seja, alta tecnologia versus o custo do equipamento. Para a indústria ser competitiva ela tem que oferecer preço. Hoje os preços estão altos devido à falta de insumos. Mas quando isso acabar, não haverá mais desculpas.

De qualquer forma, em tempos normais a indústria trabalha com margens estreitas. E como dividir essa margem com o concessionário ou todos os envolvidos nessa cadeia? Contudo, por causa disso a tendência é a integração. Se não consegue dividir tem que se unir. Por isso é que cada vez mais as montadoras se unirão com implementadoras, fabricantes de pneus e outros sistemas. Assim, a fabricante oferece um produto mais completo e com melhores margens. E se isso vai em direção aos serviços. Ou seja, tudo fica ainda mais interessante para o cliente final.


Haverá uma simbiose também com a concessionária. Que entra com a parte de serviço?

Dessa forma, mais uma vez a concessionária se posiciona como um sensor de mercado. Identificando para o seu cliente transportador qual é o melhor conjunto entre implemento e pneu, por exemplo. Porque tudo isso faz parte do TCO.

Multimarcas

Nesse sentido, não seria lucro para a concessionária se tornar multimarca?


Isso faz todo o sentido. Porque o cliente da concessionária será o transportador. Ou seja, a concessionária continuará levantado a bandeira de uma marca. Mas vai ganhar se em serviços ela atender caminhões de todas as marcas. E já estamos vendo esses movimentos ocorrerem no mercado.

O mercado do futuro

Como você desenha o mercado em uma década?

Em no máximo 10 anos, ou mesmo antes disso, haverá uma integração maior entre transportadora, concessionária e montadora. A tendência é que os fabricantes de veículos desenvolvam produtos adequados para o uso de cada transportador.


Com isso, a tendência é cada vez mais o transportador se torne monomarca?

Isso, ele será monomarca e seu equipamento, cavalo e carreta, será padronizado para a sua operação. Porque se você padroniza, menores são as ocorrências. Porque os produtos foram desenvolvidos exatamente para atender a determinada operação do cliente.

Mas tem aquela máxima sobre “ter diversidade para não ficar na mão da indústria”?


Mas assim como o cliente depende da indústria, a indústria também depende do cliente. É uma via de mão dupla.

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