Andrea Ramos:

Encontro de ônibus antigos em SP reúne clássicos dos anos 50 aos 90

O Viaduto no Chá, no centro de São Paulo, foi palco de um encontro de ônibus antigos. A 12ª edição da exposição Viver, Ver e Rever (VVR) reuniu 20 modelos clássicos feitos entre as décadas de 50 e 90

ônibus antigos
Sara Elis, no colo da mãe Bruna Lima, se encanta com os ônibus Crédito: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

No domingo, 15, o Viaduto no Chá, no centro de São Paulo, foi palco de um encontro de ônibus antigos. O evento reuniu 20 modelos clássicos produzidos entre as décadas de 50 e 90. Trata-se da  12ª da Viver, Ver e Rever (VVR) exposição que procura resgatar a história do transporte rodoviário de passageiros no Brasil.

“A exposição de ônibus VVR é um evento para quem gosta de relembrar o passado. É para entusiastas e o público que aprecia veículos antigos”, diz o organizador do evento, Kaio Castro.

Neste ano, cerca de 50 mil pessoas que passaram pelo local puderam conferir os modelos impecáveis. A informação é da Secretaria Municipal de Mobilidade e Transporte.

Popular no transporte escolar

Uma das raridades da exposição de ônibus antigos era um Chevrolet 3800, de 1950. O modelo, o mais antigo da mostra, foi popular no transporte escolar entre os anos 50 e 60.

O clássico pertenceu à empresa Antonio Cabral Filho. “Meu pai chegou a ter 12 Chevrolet 3800”, conta Laércio Cabral, dono da Cocatur, empresa de fretamento e turismo que ele fundou em sociedade com o pai.

Ele ganhou o modelo de presente do pai quando completou 18 anos. “Naquele dia, meu pai me disse que o meu sustento dependeria dos fretes que fizesse com o veículo”, conta. Isso foi em 1968. Cabral mantém o ônibus impecável desde então.

O 3800 do empresário tem motor Chevrolet 261 de seis-cilindros em linha a gasolina. A potência é de 140 cv.

O Chevrolet 3800 trabalhou por 26 anos no transporte escolar e de fretamento

Presente deu origem a empresa

O presente que ganhou do pai se transformou em uma nova empresa. Trabalhando com o Chevrolet 3800, Cabral conseguiu juntar dinheiro suficiente para montar a Cocatur em sociedade com o pai.

Entre as personalidades que andaram no 3800 estão o ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e o ator e cantor, Tony Tornado. Isso antes de os dois virarem personalidades conhecidas do grande público.

“Durante a semana o carro fazia o transporte escolar e entre os alunos da época estava o futuro prefeito”, diz Cabral. Nos fins de semana, o Chevrolet continuava no batente. “Transportávamos bandas e certa vez eu tive a oportunidade de levar o Tony Tornado”, relembra Cabral.

Para melhorar o serviço de transporte das bandas, o modelo recebeu algumas alterações. “Tive de colocar um bagageiro no teto e rodado duplo no segundo eixo para suportar o peso dos instrumentos”, explica Cabral.

A estrutura externa de madeira do 3800 também foi substituída. Nesse caso, o dono manteve o desenho original do veículo, que foi aposentado em 1976.

Réplica perfeita

O GMC Coach ODC é um ícone entre os busólogos a apreciadores de ônibus antigos. O modelo chegou ao Brasil nos anos 50 e após sair de linha se tornou raridade. A maioria acabou virando sucata.

Quem tem um modelo desses não vende. “A empresa que mais rodou com esse veículo no Brasil foi a Viação Cometa”, conta Milton Ardito, dono da Turismo Santa Rita. Ele é o feliz proprietário de uma réplica do ODC feita na garagem de sua companhia de transporte.

Ardito, que tem 76 anos, conta que passou boa parte da vida procurando um ODC para comprar. Como não encontrou, fez um modelo novo do zero. A réplica foi produzida a partir de um chassi da Mercedes-Benz.

Milton Ardito em frente a réplica que construiu olhando fotos do ODC

 

Reprodução minuciosa

“Fiz a réplica desse modelo quando um ônibus da frota pegou fogo. Como só sobrou parte do chassi, recuperei o que dava e comecei a construção do ODC”, conta o empresário. Para criar a réplica, ele se baseou em fotos de modelos originais que colecionou ao longo do tempo.

O acabamento interno e o trem de força são originais do GMC Coach. O motor de quatro-cilindros que gera 90 cv de potência é um Detroit produzido em 1954.

“O painel de instrumentos, além do volante e da forração de couro dos bancos, encontrei em viagens feitas pelo País atrás de ferros-velhos”, diz Ardito.  Os faróis e as lanternas foram compradas nos Estados Unidos. “São originais”, conta o empresário.

Sessentão continua no batente

A pequena Sara Elis de Lima, de 6 anos, ficou surpresa ao passar pelo Viaduto do Chá com a mãe, a operadora de telemarketing, Bruna Lima, de 37 anos. Era notável a empolgação da pequena ao ver tantos ônibus antigos estacionados.

Entre as raridades, uma chamou ainda mais a atenção da pequena. “Por ser muito espelhado”, disse ela. Era o GMC PD4104 feito em 1959. O ônibus foi comprado nos Estados Unidos pelo empresário Edson Garzon, dono da Guindastes Tataupé.

Fabricado em 1959 ônibus ainda encara uma viagem do Brasil ao Chile

O modelo foi o primeiro dos três que Edson mantém na garagem localizada na zona leste de São Paulo. Considerado um dos maiores colecionadores de veículos antigos no País, Garzon tem 60 veículos, entre automóveis, caminhões e ônibus.

O GMC que ele levou ao evento tem motor Detroit 6-71 de seis-cilindros em linha. Foi reformado pelo empresário para se transformar em um motorhome. O clássico encara o trajeto entre o Brasil e o Chile, na viagem que Garzon e sua família fazem todos os anos.

Ônibus antigos têm fãs incondicionais

O busólogo e colecionador de fotos de ônibus Wagner Vaz, de 51 anos, viajou de Votorantim, no interior de São Paulo, só para ver a exposição. Ele queria fotografar o modelo que considera como sendo o mais bonito produzido no Brasil.

A paixão de Vaz tem carroceria Nielson, marca que se transformou em Busscar,com chassi Scania 112 380. O modelo foi fabricado em 1997 e por muitos anos fez a operação rodoviária da Expresso Brasileiro.

O busólogo Wagner Vaz viajou do interior para a capital

 

“Fiz muitas fotos desse veículo ao longo da vida. Na época era mais comum ver esse ônibus com chassi Mercedes-Benz 370. A primeira foto da minha coleção foi esse modelo”, diz Vaz. Ele conta que tem mais de mil imagens de ônibus, entre fotografias, recortes de jornais e revistas.

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