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Venda de implementos em 2020 será similar à de 2019

Com quase 109 mil unidades vendidas até novembro, setor de implementos deve encerrar 2020 com dados próximos a 2019, que fechou com 120 mil emplacamentos

Andrea Ramos

23 de dez, 2020 · 14 minutos de leitura.

Setor de implementos encerrará 2020 com números bem próximos aos de 2019
Norberto Fabris
Crédito:Anfir/Divulgação
Setor de implementos encerrará 2020 com números bem próximos aos de 2019

A venda de implementos vinha se recuperando desde 2019. Assim, equalizaria as perdas acumuladas em períodos anteriores. Dessa forma, até a metade de março de 2020 o segmento estava aquecido. Contudo, a pandemia impactou também o setor. A indústria passou a projetar queda de 30% ante as 120,5 mil unidades emplacadas em 2019. Porém, os bons resultados dos últimos meses indicam forte recuperação. Então, é possível que 2020 seja similar a 2019.

Presidente da Associação das Fabricantes de Implementos Rodoviários (Anfir), Norberto Fabris concedeu entrevista exclusiva ao Estradão. Ele diz que logo após o afrouxamento do isolamento, a produção voltou a acelerar. E que a maior demanda vem sendo registrada na linha pesada.

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"O Brasil é um produtor de alimentos para o mundo. Nem a pandemia derrubou esse potencial", afirma Fabris. "Foi o que ajudou a salvar a economia neste ano." De acordo com ele, a Anfir projeta fechar 2020 com 120 mil unidades emplacadas. Bem como já há quem aposte na superação desse número.  ou até mesmo ultrapassar esse número. Afinal, de janeiro a novembro foram vendidos 108.899 implementos rodoviários no Brasil.

Da mesma forma, Fabris prevê que em 2021 as vendas crescerão entre 8% e 10%. Segundo o executivo, o protagonismo do ano que vem ficará com a linha leve. Da mesma forma como o setor de pesados vem fazendo em 2020. Confira a entrevista.

Ano de pandemia

Como a covid-19 afetou o setor de implementos rodoviários?
Vínhamos, desde 2019, em um ritmo de recuperação do mercado. Em outras palavras, era uma retomada daquilo que havíamos perdido entre 2014 e 2018 por causa da crise econômica. Do mesmo modo, começamos este ano em ritmo aquecido. Eu diria que 2020 seria um bom ano porque o começo foi acelerado. Contudo, na metade de março sentimos o peso da queda brusca causada pela pandemia. A indústria de implementos ficou fechada por dias. Ao mesmo tempo, havia uma carteira grande de pedidos. Nesse interim, muitos foram cancelados.


Ou seja, foi um momento que ficamos totalmente sem rumo. Dessa forma, projetamos que o setor sofreria uma queda, de pelo, menos 30%. Porém, apesar de ter sido uma fase terrível, a partir de junho a situação começou a reverter. Nesse meio tempo, o mercado voltou a comprar. Acima de tudo, acredito que isso ocorreu pela aceleração da economia puxada pela área agrícola.

Pesado se supera

Por isso a linha pesada está se recuperando melhor?
Sobretudo a agroindústria, com a produção de grãos para exportação, ajudou a vender equipamentos da linha pesada. Apenas esse segmento representa 40% do negócio de implementos rodoviários. Então, vamos encerrar 2020 com números promissores. Em outras palavras, similares aos do ano passado. Tanto que fechamos novembro com vendas superiores as do mesmo mês de 2019. Da mesma forma, de janeiro a novembro de 2019 foram emplacadas 58,5 mil unidades. Ao passo que em igual período deste ano foram emplacados pouco mais de 60 mil implementos. Ou seja, houve alta de quase 3%. Como resultado, 95% das empresas já venderam o que irão produzir até março de 2021.

Essa demanda é resultado do aquecimento do setor?
As fábricas da linha pesada estão trabalhando com todos os cuidados. Acima de tudo, mantendo as medidas protetivas e o distanciamento obrigatório. No início do retorno das atividades, a maior parte das empresas estava operando com 50% do efetivo. Logo, o número passou para 75% até chegar a 100% dos funcionários. Porém, com o aumento do número de ovos casos de contaminação, tivemos de recuar. Ou seja, reduzimos para 75% o número de funcionários. Simultaneamente a isso, estamos registrando aquecimento nas vendas. Como resultado, poucas empresas vão parar no fim do ano.


Implementos leves

E como está o comportamento do segmento de leves?
A linha de implementos da categoria leve sofreu mais os impactos causados pela pandemia. Em 2019, de janeiro a novembro, foram 52,5 mil emplacamentos. Em igual período deste ano, foram 48,9 mil, o que representa uma queda próxima a 7% em comparação ao ano passado. Mas isso é algo que está ocorrendo nos últimos anos. A linha leve vem perdendo em números para a gama pesada. No entanto, em valores, a linha pesada representa mais para o setor. Mas, quando se fala em unidades, no geral, por causa dessa retração nos leves, a queda é de 1,79% na comparação com 2019.

Qual é o motivo da queda no setor de leves, uma vez que o e-commerce disparou?
O e-commerce está concentrado em grandes varejistas. Já o principal negócio da linha leve é o pequeno varejo. Este ainda está fraco. O mercado do bairro e o pequeno comércio ainda não estão andando. Isso impactou a linha leve.

Fechamento de 2020

Em 2020 as vendas chegarão perto dos resultados de 2019?
Acreditamos que até o fechamento de dezembro recuperaremos as perdas. Isso por causa da demanda por implementos pesados. De janeiro a novembro de 2019, foram emplacados 110.879 implementos no País. Até novembro deste ano, vendemos 108.899 unidades. Do jeito como o mercado está aquecido, acreditamos que vamos fechar 2020 com números bem próximos aos de 2019. Ou quem sabe até um pouco melhores.


Olhando para 2021

Quais são as expectativas do setor para 2021?
Estamos bastante otimistas com relação ao próximo ano. Na semana passada, me reuni com os maiores fabricantes de implementos do Brasil. E as expectativas são positivas. Estamos projetando que em 2021 haverá crescimento na faixa de 8% a 10%, sendo reforçado pela linha leve. Isso porque o segmento pesado foi o protagonista deste ano. Mas há a preocupação com relação ao abastecimento de matéria-prima e ao reajuste de preços, sobretudo do aço. Outro item que está em falta são pneus. E isso pode implicar na negociação de preço. É um desafio vender uma carreta hoje para entregar em maio do ano que vem. Porque há essa instabilidade nos preços das matérias primas.

Quais são os principais desafios a serem vencidos?
O desafio é lutar contra essa pressão causada pelos aumentos de preços. O dólar até que se desvalorizou um pouco. Então, as usinas fabricantes de aço também devem conter os aumentos. A briga é para segurar a inflação e essa pressão de preços.


Segmentos e financiamentos

Quais os segmentos, além do agro, que podem puxar o setor em 2021?
Creio que a construção civil deverá ajudar a puxar a economia. O setor é importante para a geração de emprego e renda. Estamos sentindo isso por causa das vendas de silos e betoneiras. As vendas caíram muito no passado e agora estão se recuperando. Além disso, há novas obras de infraestrutura sendo tocadas pelo governo federal. E isso deverá se estender pelo próximo ano. Sobre produtos, creio que a linha pesada está em um patamar de vendas que atende o tamanho do Brasil. Estamos próximos dos  70 mil emplacamentos. Penso que 90 mil é exagero e 50 mil é baixo demais. Por outro lado, a linha leve está com vendas muito fracas. Acredito que os números crescerão em pelo menos 10 mil unidades.

Como está a questão do financiamento para a compra de implementos?
Com a queda da taxa Selic, os financiamentos bancários passaram a ser interessantes. O Finame teve representação importante nos últimos 15 anos. Mas em 2020 perdeu a importância. Isso devido à maior oferta de crédito por parte dos bancos comerciais. E isso com juros não muito superiores. Atualmente o financiamento está sendo muito mais pelo bancos do que pelo Finame. Essa modalidade já representou 80% das vendas de implementos rodoviários no País. Hoje, a participação não chega a 25%. O Finame sempre foi e continuará sendo importante. Porém, nesse momento de taxas de juros mais baixas essa modalidade de crédito perdeu o protagonismo.

Produtos e tendências

O que vamos há de novo no setor em termos de tendências e tecnologias?
Nossa busca é sempre pelo desenvolvimento de implementos mais leves. E também mais resistentes e duráveis. Certamente, na próxima Fenatran vamos ver muita coisa nova nesse sentido.


E quais são as tendências em relação à eletrificação e segurança?
Hoje há muita aplicação de eletrônica nos implementos. Assim como o freio ABS é mandatório, já há implementos com controle eletrônico de estabilidade. A tendência é ampliar essas tecnologias. A eletrificação também deverá ganhar força.

E as composições com quatro eixos? Tecnicamente, trata-se de uma boa opção ao bitrem.
É inegável que o desenvolvimento do transporte rodoviário no Brasil evoluiu. E muito disso é devido a  criações como a do implemento com quarto eixo. Até 1996, não havia composições no Brasil. Com a chegada do bitrem, o transporte ganhou em termos de produtividade e novas composições foram surgindo. No entanto, a questão do quarto eixo é a legislação. O equipamento tem suas vantagens. Porém, as fabricantes de implementos não podem produzir porque essa composição ainda não é regulamentada. Mas, se a legislação liberar, vamos produzir. Temos toda a capacitação técnica e condições para fabricar esse tipo de implemento.