Andrea Ramos

28/02/2020 - 23 minutos de leitura. Atualizado: 03/03/2020 | 9:17

Testamos o caminhão autônomo Axor 3131 da Mercedes-Benz

O caminhão autônomo Axor 3131 da Mercedes-Benz destinado a colheita de cana já está a venda no Brasil. No seu primeiro ano de uso modelo dobrou a colheita

O Axor 3131 rígido é o caminhão autônomo da Mercedes-Benz
Crédito: Mercedes-Benz/Divulgação

A Mercedes-Benz já oferece no Brasil o caminhão autônomo Axor 3131. O sistema, de nível 2 (saiba mais abaixo), foi desenvolvido em parceria com empresa brasileira de tecnologia Grunner. Fomos a Lençóis Paulista (SP) testar o caminhão que pode rodar sem interferência do motorista, tem preço sugerido em torno de R$ 700 mil e opera em plantações de cana-de-açúcar.

A Mercedes-Benz já vendeu 40 caminhões autônomos do tipo (entre Axor e Atego) no mercado brasileiro. Desse total, cinco pertencem à Agrocana Caiana, cooperativa agrícola de Lençóis Paulista. O Estradão testou, mas “não” dirigiu um deles. Afinal, o apelo desse caminhão é poder rodar sozinho, sem interferência.

O sistema foi desenvolvido para operar no transbordo da colheita. Como resultado, a produtividade praticamente dobrou em cerca de um ano. Na safra 2017/2018, a Agrocana Caiana colheu 118 toneladas de cana-de-açúcar por hectare. Antes do início da operação do caminhão autônomo, a cooperativa colhia 69 t por hectare.

Entre as vantagens, o caminhão autônomo Axor 3131 eliminou o “pisoteamento de brotos” (quando os pneus passam sobre as novas mudas) durante a colheita. A perda de brotos é uma das maiores causas de prejuízo na lavoura de cana no Brasil. Segundo a Agrocana Caiana, esse problema gera perdas anuais na produção de até 12%.

O Axor 3131 é o primeiro caminhão pesado com tecnologia autônoma e ele tem capacidade de carga líquida de 20 t

Com o fim do pisoteamento, a longevidade do canavial também aumentou. A cooperativa informa que a cada cinco anos era preciso fazer o replantio. Agora, a expectativa é que o intervalo passe a ser de cerca de nove anos. Um ser humano, mesmo que seja muito bem treinado, dificilmente conseguirá obter o mesmo nível de resultado.



O caminhão autônomo Axor 3131 utiliza sistema de geolocalização. Graças ao navegador GPS de alta precisão, a margem de erro é de 2,5 centímetros. Isso faz com que o caminhão mantenha sempre a trajetória entre as filas de plantas, separadas por “ruas” com cerca de 90 cm de largura.

Entre as adaptações feitas no caminhão autônomo, a bitola (distância entre as rodas do mesmo eixo) tem 3 metros. No Mercedes-Benz Axor 3131 original, a do eixo dianteiro é de 2,62 metros e a do traseiro, de 1,8 metro. O aumento foi de, respectivamente, 38 cm e 1,2 metro.

O Axor 3131 roda paralelamente à colheitadeira, que também é autônoma. Durante a operação, a distância entre os dois veículos fica em torno de 1 metro. Para garantir a segurança, há um motorista no caminhão e um operador na máquina agrícola. Mas nenhum dos dois aciona qualquer tipo de comando.

Um braço mecânico da colheitadeira despeja a cana picada na carroceria do caminhão. Ao fim do carregamento, o motorista assume a direção e leva o Axor até o local onde será feito o transbordo da carga para veículos maiores.

O caminhão anda com precisão sem pisotear os brotos graças ao sistema de geolocalização. A colheitadeira também é autônoma

‘Motorista’ de caminhão autônomo

Na prática, o caminhão autônomo da Mercedes-Benz é um Axor 3131 convencional equipado com o sistema da Grunner.

O modelo tem todos os comandos presentes em um veículo “comum”, como volante, pedais e alavanca de câmbio. Do pátio de estacionamento até a plantação, é o motorista que conduz o caminhão.

Ao chegar à lavoura, o próprio motorista ativa o modo autônomo do caminhão, por meio de uma tela sensível ao toque. O equipamento, instalado à direita do painel, remete a um grande tablet. Ainda assim o profissional fica o tempo todo na cabine, para agir em caso de pane ou se for preciso fazer alguma manobra mais complexa, por exemplo.

Há vários dispositivos focados na prevenção de acidentes. Radares e sensores identificam obstáculos, pessoas e mesmo animais à frente. Nesse caso, os freios serão acionados automaticamente, independentemente da ação do motorista. O caminhão também opera no modo autônomo em marcha à ré.

No caminhão autônomo da Mercedes-Benz, o navegador GPS de alta precisão atua em conjunto com o controlador eletrônico de direção, conhecido popularmente como “piloto automático”. O sistema utiliza uma série de parâmetros para manter o veículo no trajeto pré-estabelecido. Nesse caso, entre as filas da plantação de cana.

O caminhão é conduzido pelo motorista para chegar até o campo, manobrar ou transportar a cana colhida para o veículo de transbordo

Axor 3131 é o caminhão pesado autônomo

O processo de transformação de um caminhão “normal” para autônomo é feito em duas etapas. A Mercedes-Benz, parceira exclusiva da Grunner no projeto, entrega à empresa de tecnologia os Axor 3131 com tração 6×4. Essa versão é a mais indicada para operações no fora-de-estrada como agronegócio, mineração e construção civil.

O Axor 3131 tem motor OM-926 de seis-cilindros em linha turbodiesel que gera 310 cv de potência a 2.200 rpm. O torque, de 122 mkgf, é entregue entre 1.200 e 1.600 rpm. O câmbio é o Comfortshift, uma caixa semi-automatizada de 16 marchas.

A versão oferecida tem cabine-estendida e duas opções de distância entre os eixos. A com 3,6 metros é indicada para operações com caçamba e basculante. A com 4,8 m, por sua vez, é ideal para uso de plataformas.

O peso bruto total (PBT) do Axor 3131 é de 31,5 toneladas. O peso bruto total combinado (PBTC), assim como a capacidade máxima de tração (CMT), é de 63 t. Nessa configuração, a capacidade de carga líquida é de 16 t.

Os pneus são de alta flutuação. Os dianteiros têm medida 405/60R22,5 e os traseiros 560/60R22,5. As medidas diferentes não prejudicam a manobra

As adaptações feitas pela Grunner podem incluir tração 8×4. Nesse caso a capacidade de carga líquida sobe para 20 t. Essa foi a configuração testada pelo Estradão.

A empresa instala vários equipamentos para garantir aptidão ao trabalho na lavoura de cana. Entre os destaques estão os protetores para os espelhos retrovisores, que ficam mais distantes da cabine por causa do aumento da bitola e da utilização de implementos mais largos.

Há ainda grade de proteção na dianteira, contra resíduos que possam danificar partes importantes do veículo e rack com Giroflex. O sistema de luzes no teto, combinado com os faróis auxiliares, é necessário porque o veículo caminhão autônomo opera 24 horas por dia.

Nossas impressões ao ‘não dirigir’

As primeiras sensações ao volante do caminhão autônomo são curiosidade e estranheza. No começo, a insegurança bate forte. Isso porque o caminhão entra em marcha sozinho, obedecendo a velocidade pré-programada. Na nossa primeira experiência de “não dirigir”, cravamos o limite de 10 km/h na tela que comanda todo o sistema.

Durante a operação, cabe ao motorista monitorar o comportamento do caminhão. A atenção fica dividida entre o sincronismo com a colheitadeira e a tela que mostra várias informações do Axor 3131.

É preciso controlar o ímpeto natural de pisar no pedal de freio e tocar o volante, por exemplo. Se o motorista tomar qualquer uma dessas atitudes, o sistema autônomo é desligado. Nesse caso o caminhão volta a ser comandado pelo motorista.

A suspensão metálica e pneumática (com bolsões de ar colocados nos quatro pontos do eixo) garante total conforto para quem está a bordo. O sistema pneumático melhora a distribuição da carga e reduz o desgaste do caminhão. Em conjunto com os pneus de alta flutuação, essa solução filtra muito bem os impactos com eventuais irregularidades do terreno.

Bom também é o banco do motorista. Além de ter suspensão a ar, o assento traz uma série de possibilidades de ajustes de altura e profundidade. Isso permite encontrar facilmente a melhor posição ao volante. Seja pra quem vai dirigir ou apenas ficar olhando o que acontece em volta.

Por causa da velocidade reduzida, o motor do Axor trabalhou o tempo todo em baixa rotação. Com o seis-cilindros girando abaixo das 1.000 rpm, ficou constantemente na faixa verde (que indica reduzido consumo de combustível).

O sistema de direção cumpre bem o seu papel, a despeito dos pneus maiores e mais largos que os utilizados em operações rodoviárias, por exemplo. Não é difícil manobrar os Axor 3131. O motorista tem total domínio e não sente o veículo pesado na hora de esterçar, mesmo com 20 t de carga na carroceria.

Grunner nasceu parceira da Mercedes-Benz

Apesar do nome alemão (que significa mais verde, em tradução livre) a Grunner tem sede em Lençóis Paulista (SP). Criada em 2017, a empresa pertence à Agrocana Caiana. Por isso é focada no desenvolvendo de tecnologias voltadas à melhoria da produtividade da lavoura de cana-de-açúcar.

Os experimentos que deram origem à atual solução começaram em 2010, antes, portanto, da fundação da empresa. Naquele ano, os técnicos da Agrocana Caiana desenvolveram o primeiro modelo caminhão autônomo do País.

O objetivo é substituir o trator, utilizado na época pela operação de transbordo da carga. Isso porque os caminhões garantem produtividade muito maior. Para comparação, na lavoura de cana o trator tem durabilidade média de seis anos. No mesmo período um caminhão utilizado nesse tipo de serviço roda apenas 80 mil km.

Primeiro caminhão autônomo brasileiro

O primeiro protótipo de caminhão autônomo do Brasil foi um Mercedes-Benz 2423, de acordo com informações do diretor comercial e de marketing da Grunner, Mateus Belei. O modelo, que pertencia à frota da Agrocana Caiana, teve as bitolas aumentadas para quase 3 metros e recebeu navegador GPS.

Belei afirma que o modelo apresentou redução de 50% no consumo de combustível em relação ao trator convencional. “Logo no primeiro ensaio o protótipo se comportou muito bem. E atendeu nossas necessidades na operação com relação ao controle de tráfego, agilidade e disponibilidade.”

Em 2014, todos os caminhões da frota Agrocana Caiana utilizados no transbordo já eram autônomos. Naquele ano, os bons resultados dos sistemas desenvolvidos pela cooperativa chamaram a atenção da Mercedes-Benz. A fabricante de origem alemã buscava soluções autônomas para seus veículos. A parceria ocorreu de forma natural.

Pela tela o motorista programa a velocidade do veículo no modo autônomo, e consegue acompanhar toda a rota que o veículo faz sozinho

Atualmente a Grunner oferece sistemas de condução autônoma para vários clientes, sempre com caminhões da Mercedes-Benz. Belei informa que é possível “desinstalar” todos os dispositivos. Com isso, na hora da renovação da frota o caminhão pode ser revendido mais facilmente no mercado de usados.

As 40 unidades com sistema de condução autônoma de nível 2 são do pesado Axor 3131 e do semipesado Atego 2730. A  Grunner já está realizando testes com a tecnologia de nível 4 no Axor 4144 em versões com tração 8×4 e 8×6.

Axor não é pioneiro

Embora o Axor 3131 seja o primeiro caminhão autônomo desenvolvido no Brasil, o pioneiro em vendas foi o Volvo VM 270 6×4. O modelo da marca sueca foi lançado no País 2016 também para operações em lavouras de cana-de-açúcar da Usina Santa Terezinha, em Maringá, no Paraná.

O VM 279 tinha motor  MWM de 270 cv de potência a 2.200 rpm e 97 mkgf de torque entregues entre 1.200 rpm e 1.600 rpm. O seis-cilindros em linha tinha sistema Common Rail de injeção de diesel. O câmbio era automatizado de 12 velocidades.

O peso bruto total (PBT) do VM é de 32 t (500 kg a mais que o do Axor. A capacidade de carga líquida o Volvo é 4 t maior que a do modelo da Mercedes-Benz. O sistema de automação dos dois modelos é bastante parecido.

Volvo aluga o kit para caminhão autônomo

O VM traz duas antenas de alta precisão para o navegador GPS e o Volvo Dynamic Steering (VDS). O sistema de direção com assistência elétrica deixa o volante “mais leve” e faz com que o Volvo seja mais fácil de manobrar que o rival da Mercedes-Benz.

O Volvo VM chegou em 2016 como o primeiro caminhão autônomo vendido do País

O Volvo VM 330 tem preço sugerido em torno de R$ R$ 425 mil. O sistema de condução autônoma não é vendido no Brasil. A marca aluga o equipamento, mas não revelou o preço da locação. De acordo com informações da filial brasileira da empresa, o preço varia de acordo com o tipo de operação e tamanho da frota.

Os níveis de automação

Belei diz que a Grunner está desenvolvendo um sistema de nível 4 para o caminhão autônomo. Nesse nível de automação o motorista é totalmente dispensável. Esse tipo de caminhão será utilizado apenas em ambientes fechados.

O foco será operações insalubres e com alto nível de risco à integridade física do motorista. É o caso das áreas de mineração e transporte de madeira. Nos dois, há grande chance de tombamento por causa do peso da carga e da topografia do terreno.

Confira, abaixo, detalhes sobre os níveis de automação em veículos

Nível 1 – Praticamente todos os caminhões pesados do segmento Premium têm recursos de condução autônoma de nível 1. É o caso de sistemas como Assistência Ativa de Frenagem (ABA), de Orientação de Faixa de Rolamento, Controle de Distância (do veículo à frente) e de Velocidade com radar. No novo Mercedes-Benz Actros, cujas entregas começam em abril, esses itens são de série. As linhas Scania R e Volvo FH também trazem , mas oferecidos como itens opcionais.

Nível 2 – Graças ao sistema de geolocalização, o caminhão pode frear, acelerar e seguir a rota predeterminada sozinho. Sua operação é limitada a ambientes controlados. Um motorista deve ficar a bordo para monitorar o comportamento do veículo e intervir quando necessário. Os Volvo VM 270 e 330, os Mercedes-Benz Axor 3131 e Atego 2730 têm essa tecnologia.

Nível 3 – Traz basicamente as mesmas soluções do sistema de nível 2. A diferença é que não há necessidade de intervenção do motorista em algumas situações. Se o sistema identificar que o caminhão está em um congestionamento, por exemplo, poderá entrar em ação sem interferência humana.

Sem motorista por perto

Nível 4 – O nível 4 de condução automação dispensa totalmente o motorista. Na Europa a Volvo apresentou o Vera, que está sendo testado em centros de distribuição na Suécia. O cavalo-mecânico não tem cabine. A Grunner informa que também está testando o sistema para uso em operações insalubres para o motorista, como mineração e madeireira.

Nível 5 – O nível mais alto de automação permitirá que os veículos atuem 100% sozinhos, interagindo com o entorno. Haverá troca de informações com os outros veículos e semáforos, por exemplo.

Veredicto

O Mercedes-Benz Axor 3131 equipado com sistema de condução autônoma da Grunner cumpre tudo o que promete. O caminhão reduz o desperdício, pode trabalhar durante as 24 horas do dia e ajuda a aumentar a produtividade no campo. Além disso, é confortável para o motorista que, mesmo quando não está dirigindo, deve ficar a bordo. E, como é possível retirar todas as adaptações, não haverá perda valor de revenda no mercado de usados. Por isso, foi aprovado com louvor.

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