Transportadoras sofrem com falta de motoristas capacitados

Com a pandemia, que evidenciou a falta de motoristas capacitados, executivos de transportadoras contam o que têm feito para atender a demanda, que está voltando a crescer

Crise do coronavírus intensifica a necessidade de bons motoristas de caminhão
Crédito: Renault Trucks/Divulgação

Por causa da covid-19, motoristas que fazem parte do grupo de risco foram afastados do trabalho. Isso vem agravando um problema que já era sério sobretudo para as transportadoras: a falta de profissionais qualificados. Para dar conta da demanda, que está voltando a crescer, algumas empresas têm optado por treinar novos funcionários e outras vêm remanejando os mais velhos.

No Brasil, 15,6% dos caminhoneiros reconhecem que a falta de qualificação ameaça o futuro da profissão. O dado faz parte dos resultados de uma pesquisa feita CNT (Confederação Nacional dos Transportes) sobre o perfil do motorista de caminhão. O estudo contou com a participação de 1.100 profissionais.

LEIA TAMBÉM: Caminhoneiros mudam hábitos por causa da covid-19

Na Transita Transportes, 30% dos 120 motoristas têm mais de 60 anos. Durante o auge da pandemia, esses profissionais tiveram as férias antecipadas. A transportadora remanejou o restante do quadro de funcionários para atender os clientes.

“Como as atividades caíram 30%, não tivemos de fazer novas contratações”, diz o diretor-conselheiro da transportadora, André De Simone (foto abaixo). O problema é que a pandemia ainda não foi debelada. Com isso, após o fim das férias a Transita ofereceu licença aos mais velhos.

“Deixamos os colaboradores à vontade para escolher se voltariam ou permaneceriam afastados, de licença. Como optaram pelo retorno, não precisamos treinar novos profissionais”, afirma De Simone. Ele conta que a empresa fez uma força-tarefa para que o retorno ocorresse da forma mais segura possível.

O novo normal dos motoristas

Além de garantir o uso de máscara e oferecer álcool gel em vários pontos das instalações, a Transita criou um programa de treinamento. Os motoristas são orientados a evitar aglomerações. Abraços e apertos de mão estão na lista de restrições.

A transportadora, que atua no ramo farmacêutico, também aumentou o número de funcionários da área de limpeza. O objetivo é garantir que todas as instalações de uso comum sejam higienizadas com mais frequência.

“É praxe fazer o rodízio de motoristas no veículo. Com a pandemia, optamos por manter o grupo de risco em caminhões exclusivos. E os veículos são higienizados diariamente”, diz De Simone.

Os motoristas que fazem parte do grupo de risco também foram remanejados. Eles só viajam para regiões onde não há foco do novo coronavírus ou onde o número de casos é baixo.

De Simone lembra que capacitar novos motoristas leva tempo. Por isso, uma das estratégias é incentivar os filhos de funcionários, sobretudo caminhoneiros, a trabalharem na empresa.

Eles começam em atividades administrativas enquanto vão recebendo o treinamento. Nas primeiras viagens ao volante, são acompanhados por motoristas experientes. Com isso a empresa contribui para formar novos profissionais.

Banco de dados com motoristas
A SVD atua no transporte de veículos comerciais novos. Como esses modelos vão rodando até o destino, os motoristas devem ter familiaridade com as novas tecnologias embarcadas.

Diretor da SVD, Roberto Trindade diz que a empresa capacita e mantém um banco de dados com esses motoristas. Eles não são funcionários, mas podem ser acionados em caso de necessidade. Com isso a empresa consegue atender uma eventual alta na demanda pelo serviço ou um desfalque no quadro fixo de funcionários.

A SVD também faz entrega técnica e treina os motoristas de clientes que compraram caminhões novos. Com isso a transportadora também consegue abastecer o banco de dados com nomes de motoristas.

Por causa da pandemia, a SVD vai antecipar as férias, inclusive do ano que vem, para alguns motoristas que fazem parte do grupo de risco. E, para manter o nível de atendimento, a empresa vai recorrer ao banco de dados.

Ouro Negro terceirizou motoristas

Diretora-geral da Ouro Negro Transportes, Priscila Zanette (foto acima), concorda que há falta de motoristas capacitados. A solução adotada pela empresa é trabalhar com profissionais terceirizados.

Ela também mantém uma base de dados com profissionais da área. “Buscamos aqueles que já trabalharam com a gente. Sabemos que eles são experientes e que conhecem as nossas operações.”

No início da pandemia, cerca de 2% dos motoristas da Ouro Negro foram afastados por causa da idade. Os cerca de 15 profissionais fazem parte do grupo de risco. Mas, como a demanda pelo serviço caiu, isso não afetou a empresa.

Em maio, a demanda pelo transporte de carga voltou a crescer. A alta é creditada à flexibilização da quarentena em algumas cidades. E, para atender a procura, a Ouro Negro lançou mão dos terceirizados.

Priscila conta que esses motoristas estão atuando na coleta e na entrega. “São viagens longas que requerem motoristas com larga experiência em rodovias”, diz

Treinamento ‘em casa’

Do Grupo Scapini cerca de 20 motoristas foram afastados por causa dos riscos da pandemia. Por prevenção, a empresa decidiu contratar novos profissionais.

“Em abril, não sabíamos qual seria o tamanho nem o tempo de duração da crise. Mas tínhamos certeza de que deveríamos estar prontos para atender os clientes. Por isso contratamos”, diz o diretor da transportadora, Lucas Scapini (foto abaixo).

Ele diz que a empresa aproveitou a baixa na demanda para treinar os novos motoristas. “Nossos treinamentos são intensos e duram em torno de três semanas. As vezes é melhor contratar o profissional sem muita experiência, porque assim podemos capacitá-lo de acordo com as exigências das nossas atividades”, explica Scapini.

A transportadora também realiza ações para reduzir a rotatividade de motoristas. Entre elas estão bonificações e prêmios. “Reter os motoristas é outro desafio. Investimos muito em treinamento, então temos também de reter esses profissionais”.

Notícias relacionadas