Andrea Ramos

19.06.2020 | 21:49 Atualizado: 20.06.2020 | 9:10

Agronegócio evita queda ainda maior nas vendas de caminhões

Bons resultados do agronegócio, um dos poucos setores que não foram prejudicados pela pandemia. ajudarão a evitar uma queda ainda maior nas vendas de caminhões

Agronegócio ajuda a indústria de caminhões a não amargar mais perdas
Crédito: Volvo/Divulgação

Os bons resultados do agronegócio devem amortizar a queda nas vendas de caminhões novos em 2020. Segundo as montadoras, a retração poderá ser menor que o previsto inicialmente. No começo de junho, a Anfavea, associação que reúne as montadoras, divulgou previsão de redução de 36% nos emplacamentos de caminhões, para 65 mil unidades.

As fabricantes apostam em uma recuperação no próximo semestre. Isso porque, historicamente, na segunda metade do ano as empresas começam a renovar ou ampliar a frota para usar na colheita seguinte.

Vice-presidente de caminhões e ônibus da Mercedes-Benz, Roberto Leoncini diz que há outros setores com bons resultados. De acordo com ele, entre os destaques estão as áreas de mineração e florestal (para a produção de celulose).



Leoncini lembra, contudo, que a falta de crédito é um complicador. Ele afirma que, no Banco Mercedes-Benz, a procura por linhas de financiamento está no mesmo nível anterior ao da crise. A aprovação dos contratos também está mais difícil.

Para Leoncini, falta de crédito pode comprometer as vendas de caminhões novos

Para Loncini, outro fator preocupante são os preços dos caminhões usados, que devem cair. Isso aumenta a distância para o novo e deixa o consumidor mais resistente a trocar o modelo de segunda mão por outro novo. “Não são todos os clientes que se dispõem a aceitar uma avaliação mais baixa no modelo que entrar na troca como parte de pagamento”, diz.

Vendas devem melhorar

De acordo com Leoncini, as vendas em maio e junho foram boas. No acumulado do ano até o início desta semana, foram produzidos mais de 30,3 mil caminhões com PBT (Peso Bruto Total) superior a 6 toneladas. O executivo afirma que, por ora, a previsão é fechar 2020 com vendas entre 75 mil e 77 mil unidades. Esses números incluem ônibus.

Diretor comercial da Scania, Silvio Munhoz concorda com Leoncini. Segundo ele, as vendas no mercado interno ficarão em torno de 65 mil caminhões e 10 mil ônibus.

Para Munhoz, a queda nas vendas será resultado da retração econômica. Ele ratifica a previsão da Anfavea, que aponta  recuo do PIB entre 7% e 7,5%. O Produto Interno Bruto é a soma de todas as riquezas geradas pelo País ao longo do ano.

Para Munhoz, da Scania, recuo da economia impacta o setor

Munhoz também acredita que a queda só não será maior graças ao agronegócio. De acordo com ele, em 2020 o setor será ainda mais relevante nas vendas de caminhões do que em anos anteriores.

Normalmente, de 25% a 30% dos caminhões emplacados no Brasil são utilizados no transporte de grãos. Considerando os demais negócios ligados à agricultura, o número sobe para 40%.

“A economia agrícola cresceu muito. As previsões de renda do setor está na casa dos R$ 800 bilhões”, afirma Munhoz. “A safra deste ano será maior que a do ano anterior. Obviamente, isso vai repercutir no transporte”, avalia.

Ele afirma que a agropecuária deve ter papel de destaque na economia.Especialmente na exportação de carne, cuja alta no volume de transporte vem demandando caminhões frigoríficos.

Incertezas limitarão crescimento maior

Diretor de caminhões da Volvo do Brasil, Alcides Cavalcanti afirma que a produção de cana para exportação de açúcar também terá impacto positivo no setor. Ele acredita que em junho os emplacamentos ficarão em torno das 6 mil unidades. Em maio, foram licenciados 3,6 mil caminhões no Pais.

O número será semelhante à média mensal registrada antes da pandemia. Mas isso não quer dizer que as vendas cresceram. Ocorre que muitos caminhões vendidos em meses anteriores não foram emplacados por causa da paralisação dos serviços dos Detrans.

Cavalcanti, da Volvo, avalia que a queda nas vendas pode chegar a 40%

Para Cavalcanti, o mercado ainda vive um momento de incertezas. Ele lembra que é difícil prever como a economia vai se recuperar. Por isso, o executivo acredita que a queda nas vendas neste ano possa chegar a 40%.

Segmento de caminhões semipesados deve ajudar

Diretor comercial da Iveco, Ricardo Barion conta que 40% da produção da empresa é direcionado ao agronegócio. Segundo ele, são caminhões semipesados, especialmente os de 24 t e 29 t de PBT, com tração  8×2. Boa parte das vendas é formada por cavalos-mecânicos pesados.

“Os semipesados operam no transbordo. Levam os grãos da fazenda para o armazenamento. E rodam curtas distâncias, de até 300 km. A operação se complementa com o caminhão pesado. Esse leva os grãos para os navios”, diz Barion.

Barion informa que 40% da produção de caminhões da Iveco é dedicada ao agronegócio

Para o executivo, as vendas devem crescer no segundo semestre. Ele acredita que o País já entendeu como funcionam os impactos da covid-19. E as cidades estão aprendendo como flexibilizar a retomada em meio à pandemia.

Seguindo Barion, um impacto como o sofrido no início de abril não vai mais acontecer. Com isso a tendência, de acordo com ele, é de recuperação da economia.

Barion também aposta na pecuária. “No último mês vimos um aumento na demanda por caminhões para atuar na exportação de suínos e frangos”, afirma.

O mercado não está bom, mas não está parado

Vice-presidente da Volkswagen Caminhões e Ônibus, Ricardo Alouche também reporta alta na procura por caminhões semipesados. Segundo o executivo, esse aumento pode se intensificar. Alouche acredita que os bons resultados do agronegócio estão movimentando outros setores da economia.

“Os semipesados de 24 t e 29 t de PBT são versáteis. Podem atuar tanto em entregas urbanas de curtas e médias distâncias, quanto em longas distâncias.” Ele lembra que o 29 t 8×2 não leva a mesma quantidade de carga que um cavalo-mecânico, mas muitos transportadores estão optando por esse tipo de modelo. “A principal vantagem é ser mais barato em relação ao caminhão trator”, diz Alouche.

Esses caminhões estão sendo utilizados no transporte de frutas e legumes das fazendas para os centros urbanos. Alouche afirma que esse tipo de caminhão também pode transportar outros tipos de mercadorias.

Copo meio cheio ou meio vazio

Alouche concorda que a agricultura impacta o negócio de caminhões. Para o vice-presidente da VWCO, o processo de retomada deve impactar positivamente o setor.

Ele cita o exemplo da China, que voltou a comprar grãos e minérios do Brasil. Os bons resultados das exportações do setor de açúcar também contribuirão para uma melhora do panorama, segundo o executivo.

“A agricultura movimenta outras cadeias, paga salários e incentiva o consumo”, afirma ele. “E o caminhão está envolvido em todo esse processo. Mesmo assim, o mercado está longe de estar bom, tampouco aquecido.”

Para Alouche, o importante é que o setor não está parado. “O agronegócio está movimentando o País nesse momento de crise. Mas isso não é suficiente para resolver o problema que vamos enfrentar na economia.”

Alouche, da VWCO, diz que o segmento de caminhões semipesados deve ter impulso

Aposta na retomada

A timidez da indústria em relação às vendas contrasta com o resultado de um estudo da Power Systems Research. De acordo com a consultoria do setor de veículos, a produção de caminhões e ônibus no Brasil em 2020 pode chegar a 96 mil unidades. A previsão é que as vendas alcancem 85 mil veículos, entre caminhões e ônibus.

Gerente geral da Power Systems Research no Brasil, Carlos Alberto Briganti diz que a previsão é baseada no avanço do agronegócio. Segundo ele, neste ano a safra deve ser recorde, com mais de 250 milhões de toneladas produzidas.

Na quarta-feira (17) o Governo Federal lançou o Plano Safra 2020/2021, que prevê recursos de R$ 236,3 bilhões para o setor. São R$ 13,5 bilhões a mais que no ano passado. Isso representa uma alta de 6,1%. Briganti diz que o novo plano é bem melhor que o anterior em termos de recursos e de taxas de juros.

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